Por que o pato?

Perguntam muito isso pra gente.

Por que o pato?

A resposta curta é simples: o Claudio tem um pato.

A resposta longa é que a pergunta em si deu o que pensar.

Não sobre patos, necessariamente, mas sobre por que a gente sente necessidade de explicar tanta coisa de que gosta.

Ando pensando em brincadeira ultimamente.

Não em jogos, exatamente, mas em ludicidade e no lugar que ela ocupa na nossa vida. Mais especificamente, em por que ela parece sumir conforme a gente envelhece.

Existe uma expectativa estranha de que a vida adulta devia nos deixar mais práticos. A gente devia ter hobbies práticos, interesses práticos e vidas práticas. Se passamos tempo fazendo alguma coisa, provavelmente devia haver um bom motivo. Se colecionamos objetos, usamos roupas esquisitas ou passamos horas aprendendo uma habilidade, quase se espera que a gente acabe explicando por quê.

O engraçado é que isso parece especialmente verdade nas indústrias criativas.

A gente passa tanto tempo falando de conceito, narrativa e significado que às vezes parece que fazer alguma coisa porque é bonita, engraçada ou interessante não basta mais. Toda decisão criativa precisa de uma história de origem. Todo objeto precisa de um statement. Toda coleção precisa de um conceito.

Um pato, aparentemente, não pode ser simplesmente um pato.

Voltei há pouco ao Homo Ludens, do Johan Huizinga, e uma ideia ficou comigo. Ele defende que a brincadeira não é só algo que a cultura produz; é uma das condições que tornam a cultura possível (HUIZINGA, 1938).

Arte, música, linguagem, rituais, festas e moda têm todos um elemento de brincadeira. Não porque sejam triviais, mas porque experimentação, imaginação e curiosidade são partes fundamentais de ser humano. A cultura não surge apesar da ludicidade. De várias maneiras, ela surge através dela.

Acho que a gente esqueceu disso.

Em algum momento do caminho, brincar virou coisa de infância. Crescer passou a significar ficar produtivo, eficiente e sensato. O lazer virou algo que precisa ser merecido, e os hobbies viraram coisas que a gente devia monetizar ou dominar. Até a criatividade começou a parecer algo que uma hora precisa virar útil.

Talvez seja por isso que as redes sociais cansem tanto às vezes.

É fácil culpar o Instagram ou o TikTok por tudo isso, mas a história provavelmente é mais antiga. Erving Goffman (1956) observou que a vida social já envolvia um grau de performance. A gente naturalmente apresenta versões diferentes de si dependendo do contexto. A pessoa que somos no trabalho não é exatamente a mesma que somos com os amigos, e isso não é necessariamente sinal de falta de autenticidade. Faz parte de viver com outras pessoas.

As redes sociais não inventaram a performance. Elas só ampliaram a plateia.

Byung-Chul Han (2015) leva isso um passo adiante. Ele defende que a cultura contemporânea recompensa cada vez mais a visibilidade e a autoapresentação constante. A pressão por otimizar passa do trabalho para o lazer, as relações e a própria identidade. Já não basta simplesmente ter experiências; somos encorajados a documentá-las, curá-las e torná-las compreensíveis pros outros.

É difícil não se perguntar se a criatividade também não entra nessa lógica.

Por que você fez isso?

O que significa?

Qual é a história por trás?

Às vezes a resposta honesta é surpreendentemente simples.

Porque eu gostei.

Porque me fez rir.

Porque pareceu certo.

Nem tudo precisa virar statement. Nem todo objeto precisa carregar uma mensagem escondida. Nem toda decisão criativa precisa se justificar por estratégia ou simbolismo.

Algumas coisas ganham significado porque viram parte da nossa vida, não porque foram desenhadas pra representar algo maior.

O pato não veio de um exercício de branding.

O Claudio tem um pato.

É isso.

A gente podia inventar uma história melhor. Podia ligar ele a mitologia ou folclore, ou escrever um parágrafo esperto sobre simbolismo.

Mas a gente gosta mais da história real.

Talvez seja porque a gente passa tempo demais tentando se explicar.

Nossos interesses.

Nosso trabalho.

Nosso estilo.

Os objetinhos estranhos aos quais a gente se apega.

Talvez nem tudo precise de um motivo.

Talvez nem tudo precise performar.

Talvez algumas coisas valham a pena só porque deixam a vida mais interessante.

E talvez um pato possa ser só um pato.




GOFFMAN, Erving. The Presentation of Self in Everyday Life. Edinburgh: University of Edinburgh Social Sciences Research Centre, 1956.

HAN, Byung-Chul. The Burnout Society. Stanford: Stanford University Press, 2015.

HAN, Byung-Chul. The Transparency Society. Stanford: Stanford University Press, 2015.

HUIZINGA, Johan. Homo Ludens: A Study of the Play-Element in Culture. Boston: Beacon Press, 1955.